Renascemos pelo amor e não pelo ódio

Por: Torcida Mancha - 1 de setembro de 2017

“As pessoas que se dizem intelectuais não percebem. As torcidas organizadas são um fenômeno social. Está lá o cara ferrado, terminando o colegial, sem saber que rumo ter na vida, brigando com os pais, sem trabalho por causa do Exército, sem rumo. Aí aparece um bando igual a ele, com o amor a um clube a flor da pele. O adolescente descobre uma família na torcida organizada. Fazer parte dela é adquirir respeito da sociedade. O cara era um largado e descobre o prazer de ser respeitado e temido. E por essa família é capaz de tudo, principalmente brigar, enfrentar quem a desrespeita”.

Moacir Bianchi

Dia após dia perdido, a gente não encontra o que fazer a não ser rebeldias ou coisas que não “prestam”. Sem uma referência, sem um amigo, um pai, sem um direcionamento, nada. Sim, dói!

De repente um colega da escola me chama para irmos em uma partida de futebol, um jogo do Palmeiras. Pegamos um ônibus sentido Lapa a caminho do estádio, onde já tinham alguns torcedores presentes, tímidos, a maioria sentada, olhares dispersos. Minutos se passaram e, em uma parada, entram cerca de oito ou dez torcedores, esses sim mais agitados, falando alto, alguns tinham cerveja na mão, um ou outro já dando socos no teto do ônibus e puxando gritos de guerra, já contagiando os demais, pelo menos a maioria, se não a maioria, já tinham conquistado meu apoio, me levantei imediatamente e fiquei próximo a eles, me sentia orgulhoso com a camisa do time, forte, poderoso!

E assim fomos em meio a toda aquela bagunça e gritos de guerra. Chegando em torno do estádio, aquele mar de gente, a maioria gritando, todos com camisas do time, uma movimentação muito louca, trânsito, esbarrões a cada três segundos. Logo arrumamos lugar na bilheteria para pedir dinheiro para conseguirmos os ingressos.

Conseguimos! Um ingresso de papel que se destaca uma parte na entrada. Logo o policial militar pergunta: “está com quem garoto?”. Com frio na barriga respondo apenas apontando para meu amigo, que também era menor, mas pelo tamanho se passava como responsável. Olhar desconfiado do policial de um lado para o outro, mas logo chegam outros torcedores para a revista onde tiram sua atenção comigo e o fluxo segue.

Você entra no estádio e se emociona, tudo é maravilhoso, tudo é bonito, o campo e o gramado, as pessoas chegando e se acomodando na arquibancada, só que de repente algo chama atenção mais que tudo, está ali um grupo de pessoas, com uma camisa diferenciada, com bandeiras, mastros de bambus, uma faixa muito grande… É a torcida! É a Mancha!

Por mais que o jogo tenha sido bom, e foi, aquele grupo me chamava a atenção, a ponto de perder lances da partida, mas não me importava com isso. Quando de repente começa um movimento estranho naquela torcida. Era uma briga com a Polícia Militar. Agora todo aquele movimento toma conta de toda a minha atenção e da maioria dos presentes no estádio.

“Vamos lá, vamos lá! Vamos ver mais de perto!”, falava para meu amigo já dando os primeiros passos, na contramão da maioria. Às vezes parava, às vezes continuava e meu amigo não queria que fossemos. E assim foi, tenso, até o final da partida.

Aquele dia marcou, aquele dia cravou. No dia seguinte na escola o assunto não era a partida, a vitória suada pra variar, os gols. Foi aquele momento “mágico”, onde sentia o frio na barriga e o calor no rosto!

Eu precisava conhecer esses caras, eu precisava andar com esses caras, eu queria ser como eles, fortes, valentes, enfrentando todo mundo. Precisava disso? Sob o julgamento de muitos. Não sei, mas necessitava naquele momento, pois era o meu momento! E ninguém podia tirar isso de mim.

“Temos que renascer pelo amor e não pelo ódio”

Pela manhã, ando pelos lados do Bom Retiro próximo ao comércio, com uma pasta debaixo do braço com meu currículo a procura de um emprego. Novo, sem perspectiva, ideia ou foco, sem uma meta a cumprir. Ando sem rumo, sem saber o que pode acontecer e torcendo para que as horas passem… Para que? Para nada.

Em uma galeria passo por uma loja onde algo me chama a atenção. Era algo na vitrine dessa loja que me chamou a atenção. Voltei e decidi ver com mais atenção. Espera um pouco… É uma camisa da Mancha! Olhei para cima no letreiro, nome da loja, e estava escrito: “Rosa Vermelha”.

Tinha umas duas ou três camisas da Mancha nessa vitrine. A loja era da Dona Norma, mãe do Paulinho, que logo apareceu. Perguntei sobre a situação da Mancha e, resumindo: a situação estava difícil, legalmente extintos, não tínhamos mais um lugar, uma sede, uma casa e, de alguma maneira, mesmo que com poucas forças, a Mancha resistia!

Fui informado que a Mancha estava se reunindo na quadra da Escola de Samba Águia de Ouro, que fica debaixo de um viaduto, ao lado da via férrea, próximo ao estádio.

Era um sábado, estava estranho, indo a um lugar onde não sabia o que encontrar, era por volta das três horas da tarde, uma entrada pequena de um portão de ferro. Logo que entrei vi algumas pessoas jogando bola na quadra, uns com a camisa do Palmeiras, outros com a da Mancha e já me senti em casa. A quadra tinha rachaduras por todo o lado, nas paredes também, olhava para cima e percebia que, em períodos de chuva, não estaríamos protegidos da água.

Naquele dia conheci muitas pessoas, todos manchistas, uns mais velhos e outros mais novos de torcida, uns tinham profissão, outros desempregados, com faixas etárias diversas, crenças e etnias distintas, todas as regiões, mas todos com o mesmo intuito: a volta da Mancha Verde.

Nos encontrávamos todos os sábados naquele lugar. A maioria jogava bola e outros se reuniam e trocavam ideias, só havia dois assuntos em pauta: o Palmeiras e a Mancha verde. Em uma dessas trocas de ideia, o líder estava presente e em volta uma molecada, todos ouvindo com atenção a situação da entidade, algumas duvidas e algumas questões, entre elas uma especial:

– “Como faremos para voltar e depois?”

E atentamente ouvimos: “será uma luta muito grande, bem difícil, mas acredito que vamos conseguir. A maioria quer nosso fim e também vão lutar muito por isso, mas tem um porém, temos que ter o máximo de atenção e união, pois só iremos perder PARA NÓS MESMOS! Portanto, temos que ser diferentes, temos que fazer diferente, não dá mais para aceitar o mesmo tipo de comportamento que nós tínhamos, temos que ser maiores que tudo isso, mas para isso, também precisamos pensar de uma forma maior. Olhem em volta de vocês… É disso que precisamos!

Eu olhei atentamente, vi em torno de vinte a vinte e cinco pessoas. Como tinha dito, uns jogavam bola e outros trocavam ideias, confesso que a princípio não entendi o que ele tinha falado, mas depois percebi. E hoje em dia, tenho uma percepção muito maior sobre isso, pois eu vivi e senti!!

Estávamos todos reunidos, todos com o mesmo pensamento, formando uma nova ideologia. Um só sentimento, todos em prol ao retorno da Mancha verde.

Renascemos pelo amor e não pelo ódio!

 

Relato de Angelo Vintecinco

Dentro da Mancha, Angelo Vintecinco virou o Gordinho. Foi vice-presidente em 2000 e 2001 e depois tornou-se presidente da Mancha em 2004. Um cara carismático, inteligente, autêntico e honesto. Hoje o Angelo faz parte do Conselho da Torcida Mancha Alvi Verde. Obrigado, Gordinho! Sua história é a nossa história.

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